O "Zé-Metade"

 por IRAN P. MOREIRA NECHO

 

Texto publicado pela Revista InConsulex

 (Brasília), em 08 de abril de 2002

 

“Sempre haverá um "Zé-Metade" para um "Meio-Cliente", cada qual ofertando menos, respectivamente, em termos de preço e de fidelidade e, também respectivamente, em termos de profissionalismo e de bom-senso!”

 

 

Ia tarde a jornada a qual, em face das atribulações cotidianas, já parecia arrastar-se, o que era cópia fiel de meus ânimos àquela sexta-feira. Confesso que a idéia de deixar para o último dia todos aqueles "prazos" era tentação que ganhava ânimo conforme batiam os segundos no relógio velho da sala principal. Mas eu resistia, ainda que em autopenitência.

 

Já estava a deitar a fatídica “... da mais lídima justiça!..." à apelação quando, em passo solene e confiante chega-me o Sr. 'X'.

 

- Como vai, Dr. Moreira Necho? Numa quase bem-sucedida intenção de esconder-me o tom irônico.

 

Apertei-lhe a mão. Num lapso de segundos correram-me à mente as imagens de sua última visita...

 

...

 

- Tudo isso? Ainda insiste? Por uma ação de apenas 100.000,00? Saiba o senhor que, antes de retornar aqui, fui até outro colega vosso, o "Dr. B", e este dissera-me que faria o mesmo, senão melhor, pela metade do preço!

 

- Bem, se o outro "colega" se disse apto a lhe ofertar melhores préstimos, creio que V.Sa. deveria tê-lo contratado, ainda que mais caro fosse, quanto mais por esta "pechincha". Disse-o em tom de quem já convida a visita a retirar-se.

 

- Não é isso! Exclamou em apaziguamento - É que considero muito V.Sa. e não gostaria de "fechar negócio" antes de consultá-lo...

 

Respirei fundo, ante o insulto complementar, enquanto olhava-o fixamente.

 

- Considerando o que V.Sa. disse-me, gostaria que considerasse que não sou mercador e, portanto, não "fecho negócios" ou sequer "cubro ofertas", e, aproveitando o ensejo, lhe pediria o favor de levar minhas considerações a este considerável "doutor". – disse-lhe apontando-lhe a porta de saída...

 

...

 

- Então? Lembra-se de mim? O Sr. "X" da empresa "Y"? Estive aqui há três meses.

 

- Recordo-me... Em que lhe posso ser útil, desta vez?

 

- Nada. Vim apenas dizer que não "fechei negócio" com o "Dr. B"!

 

- Aleluia! Suspirei. - Então finalmente o senhor resolveu se pautar pelo profissional e não mais pelo "preço"! Afirmei com um sorriso e com o alívio que sentem os justiçados.

 

- Nada disso! Pesquisei ainda mais e descobri que o "Dr. C", que é até mais "velho de carteirinha", teria uma solução melhor que o "Dr. B", e pela metade do preço deste!

 

- Sim! - continuou o "Sr. X" -  o "Dr. C" me disse que entraria com um "pedido de reconsideração", que é um "remédio jurídico avançadíssimo", naquela execução fiscal que sofro. Vim aqui apenas para que "V.Sa." - disse em ironia - aprenda a "fechar negócios". Dito isto, retirou-se, em ares de quem saboreia doce vingança.

 

Nada lhe disse. Apenas suspirei em lamentações.

 

Passados dois anos, tomei conhecimento que o "remédio jurídico avançadíssimo" falhara e que agora o "Sr. X" estava sendo processado por crime fiscal. Segundo consta, o "Dr. mais velho de carteirinha" havia juntado aos autos notas fiscais que acabaram por incriminar seu próprio cliente...

 

Moral da história: Sempre haverá um "Zé-Metade" para um "Meio-Cliente", cada qual ofertando menos, respectivamente, em termos de preço e de fidelidade e, também respectivamente, em termos de profissionalismo e de bom-senso!

 

Iran P. Moreira Necho